Países não são empresas
A história da administração pública no Brasil sempre foi marcada por avanços e recuos, um processo de modernização longe da linearidade e da construção de consensos estáveis. O último capítulo dessa história aconteceu na década de 1990, durante o primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nestes anos, o governo federal embarcou na onda da "reforma do Estado". Enquanto se privatizava, um conjunto de instrumentos e dispositivos legais foi implementado no setor público, para redesenhar a estrutura administrativa federal, redefinir carreiras, enxugar o Estado, enfim, inaugurar supostamente uma nova era de eficácia gerencial. No mundo das idéias, foi a hegemonia da escola chamada "nova gestão pública". Uma coletânea de recomendações e princípios que prometiam abrir a porta para uma nova administração, pretensamente mais pragmática, ágil e eficiente, à moda das melhores práticas empresariais.
 |
Por uma Nova Gestão Pública
Ana Paula Paes de Paula
FGV Editora, 2005, 204 p. , R$ 25, 00 |
A "nova gestão pública", nascida e criada nos países de cultura anglo-saxônica (Estados Unidos, Inglaterra, Nova Zelândia etc. ), espalhou-se pelo mundo como autêntico pensamento único, determinando programas políticos, agendas de pesquisa e pautando formadores de opinião. A professora Ana Paula Paes de Paula propõe corajosamente a inversão dessa lógica, vai contra a corrente. Desnuda didaticamente o contexto em que surgiu a nova gestão pública, seus atores e paradigmas, numa linguagem objetiva e cristalina. Faz isso para, pedagogicamente, apresentar outra perspectiva, que ela chama de "administração pública societal". Não se trata - como pode parecer - de uma rejeição infantil e fundamentalista do legado de Drucker ou de Tom Peters, tampouco de pura negação dos avanços teóricos da terceira via (a autodenominada progressive governance) ou de outros "gurus"do gerencialismo atual, mas de colocá-los no seu devido lugar. Não se governam países ou cidades como se administram empresas, não com a mesma lógica! É óbvio que técnicas específicas fazem sentido aqui e acolá, na solução tópica de problemas operacionais. O que a autora propõe é retomar o tema da gestão pública em sua dimensão sociopolítica, como campo de tensões, como relação dialógica entre o saber técnico e a crítica social. A dimensão da participação política dos cidadãos nos negócios do Estado.
PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | Próxima >>