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| Biblioteca pública em São Paulo: faltam equipamentos e materiais atualizados |
À guisa de exercício, imaginemos a vida de um iletrado no mundo atual. Ele não consegue tomar um ônibus sem pedir ajuda a alguém. Quando vai ao supermercado, não é capaz de escolher o produto cujos ingredientes satisfaçam as suas necessidades. Usa um produto de limpeza ou um medicamento sem saber os cuidados que deve tomar. Ao atender um telefone, não é capaz de anotar um recado. Não está apto para o trabalho mais elementar numa empresa ou numa repartição pública, e se consegue trabalho tem dificuldade para sacar seu salário num caixa automático de banco. Nem sequer é capaz de exercer seu direito de voto com responsabilidade.
Trata-se aqui não do analfabeto, mas daquele que, conhecendo as letras e sabendo ler as palavras, não entende o significado de uma frase e não é capaz de interpretá-la e torná-la útil em seu dia-a-dia. O Brasil tem milhões de pessoas nessas condições. Em 2004, as médias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficaram abaixo dos 50 pontos tanto na redação como o na parte objetiva, que engloba 63 questões - resultado pior do que o de 2003.
A prova foi feita por 1,04 milhão de pessoas com o ensino médio completo. A maior dificuldade: analisar informações e construir um argumento consistente sobre determinado assunto. Outro indicador significativo veio do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, em inglês), mantido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O resultado do teste aplicado em 41 países em 2003, mostrou que os estudantes brasileiros de 15 anos de idade sabem menos matemática do que os jovens da Tunísia e da Indonésia. Na área da leitura, os brasileiros não fazem nenhum progresso desde o ano 2000. São os piores da turma.
Analfabetismo funcional Um relatório sobre a situação da educação no mundo, divulgado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), situa o Brasil em 72º lugar entre 127 países. E tem mais: segundo o último Indicador de Analfabetismo Funcional, de 2003, apenas 25% da população brasileira tem capacidade de leitura plena e consegue comparar informações contidas em diferentes textos.
Os brasileiros tecnicamente alfabetizados, mas capazes de ler tão somente frases e enunciados curtos, são 37% da população, os que se limitam a localizar informações simples em uma única frase somam 30%, e 8% são totalmente analfabetos. O indicador é calculado desde 2001 pelo Instituto Paulo Montenegro, do Ibope, em parceria com a organização não-governamental Ação Educativa, por meio de uma pesquisa sobre analfabetismo funcional realizada com brasileiros de 15 a 64 anos de idade. Ao comparar os dados obtidos em 2001 e em 2003 descobre-se que a situação praticamente não sofreu alteração.
Leitores ávidos É uma realidade que precisa mudar. Nenhum país consegue dar um salto de produtividade e caminhar para a sociedade do conhecimento sem melhorar seus indicadores de alfabetização e leitura. O desafio é transformar os brasileiros em leitores ávidos e produzir mais e melhores livros. Mas há muito a ser feito. Em 1990 a população brasileira somava 147 milhões e a indústria vendeu 212,2 mil livros, o que equivale a 1,44 exemplar por pessoa.
Treze anos depois, a indústria do livro vendeu 225,8 mil exemplares, para uma população de 179 milhões, e a relação caiu para 1,42 livro por pessoa. Na comparação com países desenvolvidos, percebe-se claramente o poço em que o Brasil se encontra. Nos Estados Unidos são produzidos 11 livros per capita ao ano. Na França são sete. É claro que sempre é possível argumentar que a produção brasileira é relativamente menor porque a renda das pessoas é, também, muito inferior.
Mas o fato é que as populações de países desenvolvidos não apenas compram mais livros: elas lêem mais. Informações contidas no Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) do governo federal são taxativas. Atualmente, o índice de leitura no Brasil é de 1,8 livro por habitante por ano. Na Colômbia o índice é de 2,4 livros por habitante ao ano. Nos Estados Unidos, cinco, e na França, sete.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2001 pela Câmara Brasileira da Indústria do Livro (CBL), Sindicato Nacional das Editores de Livros (Snel) e Associação Brasileira dos Editores de Livros (Abrelivros), revelou que os índices de leitura por faixa de idade crescem enquanto os jovens estão na escola. Os leitores efetivos, isto é, os que leram pelo menos um livro nos últimos três meses, chegam a 45% da população, na média nacional, mas esse índice cai para 23% na faixa etária dos 20 aos 29 anos, quando a maioria dessas pessoas já deixou o universo escolar. A pesquisa envolveu 5.503 entrevistas com pessoas com idade superior a 14 anos e com três anos de escolaridade, residentes em 46 cidades - o que corresponde a um universo estimado de 86 milhões de pessoas.
"O Estado alfabetiza milhões de alunos na escola, e ao sair muitos deles passam a engrossar o número dos analfabetos funcionais pela falta de acesso ao livro." O diagnóstico é de Galeno Amorim, coordenador do PNLL, também chamado Fome de Livro, do Ministério da Cultura. A proposta do governo federal é criar uma nova política para o livro a leitura no Brasil.
"O Plano Nacional de Leitura está se estruturando em torno de quatro eixos: a democratização do acesso ao livro e à leitura; o fomento à leitura e à formação de leitores; a valorização do livro e da leitura; e o apoio à produção e à criação." O plano nasceu para implantar bibliotecas públicas, e estava sob o guarda-chuva da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), mas logo passou para a órbita do próprio Ministério da Cultura e ampliou muito seus objetivos. Envolveu e continua envolvendo intensos debates com todos os setores ligados ao livro e à leitura.
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