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Edição 9
Julho/2004

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Finanças
Dinheiro farto e barato
Começa a se estruturar no Brasil a indústria de capital de risco, essencial para o fortalecimento das empresas inovadoras e seu ingresso no mercado de ações.

por Edmundo M. Oliveira, de Brasília

Quando, em abril do ano passado, a empresa de cosméticos Natura abriu seu capital no Novo Mercado da Bovespa, foi observada atentamente por uma das mais dinâmicas companhias de software do país, a Microsiga. A animação do mercado acionário em 2004, com a entrada na Bovespa de marcas como a Gol Linhas Aéreas e a América Latina Logística, consolidou no empresário Laércio Consentino, presidente da Microsiga, a certeza de que, em momento oportuno e não muito distante, chegará sua vez de também lançar ações. "O mercado da Bovespa passou por um longo período de estagnação, mas recentemente se fortaleceu", diz Consentino. "Nosso processo rumo à bolsa, agora, depende de uma maior expansão e das condições do mercado, que precisa apresentar céu de brigadeiro."

Divulgação
Comemoração no lançamento de ações da Natura na Bovespa, em abril no ano passado: iniciativa observada de pertos por outras empresas com vocação para crescer.


A abertura de capital é um estágio determinante na vida dos empreendimentos que conseguem vencer a barreira do crescimento e da profissionalização. Proporciona à companhia recursos mais baratos do que os disponíveis no mercado de crédito, fortalece a marca e reforça os critérios de governança, abrindo novos horizontes para o desenvolvimento. Mas até chegar à bolsa de valores as companhias têm de conseguir recursos para se manter e investir. "O veículo que normalmente tem levado as empresas a se expandir, amadurecer e chegar até o lançamento de ações em bolsa é o capital empreendedor", afirma o presidente da Associação Brasileira de Capital Empreendedor (ABVCAP), Álvaro Gonçalves.

Capital de risco Também chamado de capital de risco, esse mecanismo é amplamente utilizado nas economias mais desenvolvidas e constitui uma indústria que, embora tenha peso relativamente pequeno em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB), é uma mola propulsora da inovação tecnológica e da construção de nomes de classe mundial. Microsoft, Intel, Dell, Apple, entre outros ícones da indústria de tecnologia da informação, são prova disso. Todas elas, em algum momento, receberam investimentos de fundos privados, de investidores individuais (angels) ou de fundos de capital-semente e de capital de risco, formados com recursos do governo americano.

Um novo ciclo está se iniciando na indústria de capital de risco brasileira. Após dez anos de experiência, desde o estabelecimento do marco institucional, surgiram os primeiros fundos no país. O momento atual é de expansão e amadurecimento, com possibilidades de um salto relevante nos próximos dez anos. "Pela primeira vez, todos os astros estão alinhados na busca de ações que impulsionem o capital empreendedor", diz Gonçalves. Ele se refere ao grupo de trabalho envolvendo a indústria, os fundos de pensão, a academia e o governo federal, constituído em outubro de 2004 e está prestes a concluir um conjunto de propostas ao governo para impulsionar a indústria nacional de capital de risco.

Aumentar o porte da indústria é o primeiro de um conjunto de desafios que levem à melhor estruturação do setor. "O capital de risco é uma cadeia complexa e estamos trabalhando sistematicamente em seu desenvolvimento desde o final da década passada", diz Patrícia Freitas, chefe do departamento de investimentos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). "O mais importante agora é que, pela primeira vez, a agenda de capital de risco está na pauta do governo." Isso é importante, segundo ela, porque, historicamente, essa indústria somente se desenvolveu quando foi fomentada pelos governos.

O exemplo recente de maior êxito, nesse sentido, é o programa israelense Yozma, iniciado em 1993, que levou o país à liderança entre os sócios da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que mais incentivam o capital de risco. O governo de Israel fomentou a formação de dez fundos. Com recursos do Tesouro, compôs de 33% a 40% do montante desses fundos, desde que os administradores integralizassem os 100% com capital externo, proveniente principalmente de investidores americanos. Pouco mais de 1.000 empresas de base tecnológica receberam investimentos e, ao cabo de cinco a seis anos, o governo pôde vender sua participação no mercado, oferecendo aos administradores dos fundos incentivo para que comprassem a parcela pública pelo valor inicial, além dos juros do período, e não pelo valor de mercado das firmas, bem superior. O programa surtiu o efeito desejado. Em pouco tempo surgiram muitos outros fundos privados, mesmo dispensando o apoio de recursos do governo israelense. Esse movimento deu densidade à indústria de capital de risco no país.

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