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Macroeconomia - O dragão chinês contra a crise

 

2009 . Ano 6 . Edição 48 - 10/03/2009

Por Márcio Oliveira, de Brasília

O crescimento econômico dos países asiáticos e os sinais de saturação da economia americana criaram a possibilidade de se vislumbrar uma nova ordem econômica no planeta no século 21: o surgimento da China como maior potência mundial. Muito já se falou sobre o poder de fogo do "dragão chinês". Seu Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo, avançou a taxas surpreendentes nas últimas três décadas, com percentuais acima de dois dígitos em alguns anos. Só entre 1992 e 2008, último período das reformas econômicas no país, o crescimento anual médio foi de 10,36%, com destaque para os 14,2% de 1992. A média do crescimento anual dos últimos 30 anos é de 9%, incluído o recorde de 15,2% de 1984. Mas os sinais recentes da desaceleração global, reforçados pela crise financeira iniciada nos Estados Unidos, principal parceiro comercial chinês, trouxeram dúvidas sobre o futuro do gigante asiático.

Com a economia extremamente aberta, a China figura entre os países mais globalizados e está exposta à crise e à desaceleração econômica dos últimos anos. Ainda cresce a taxas elevadas para os padrões mundiais de hoje. Fechou 2008 com 9% de expansão e foi guindada à condição de terceira maior economia mundial, com a revisão dos números de 2007. Ainda assim, os especialistas já não projetam mais, para os próximos anos, um vôo de cruzeiro para os chineses. Como o resto do mundo, prepara-se para um pouso suave. Mas ainda há riscos de um pouso forçado, manobra bastante arriscada para uma economia tão robusta.

Diante de um cenário de deflação em economias importantes, não é de se espantar o interesse dos países centrais pelo desempenho da China - gigante que puxou o crescimento mundial durante as últimas décadas até aqui, mais especialmente em meados dos anos 1980 e de 2005 para cá. Em 2003, voltou a alcançar 10%, e bateu em 13% em 2007 - depois de uma segunda revisão do número. Como principal pólo de crescimento, regional e global, o gigante asiático chama atenção para seu futuro. A manutenção do crescimento chinês em padrões que mantenham a atividade econômica em expansão será crucial para o futuro do planeta.

DESACELERAÇÃO O problema é que indicadores econômicos de 2008 também já apontam para uma desaceleração rápida da economia. No quarto trimestre do ano passado, o crescimento chinês deu uma freada brusca, caindo para 6,8% entre outubro e novembro, quase metade do ritmo do final de 2007. Analistas mais pessimistas apostam em um crescimento abaixo dos 7% para a China 2009. Estatísticas do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam para uma taxa 6,7% de expansão para o PIB chinês, cenário ainda bastante positivo diante da projeção para a média mundial, de 0,5%, pior previsão do fundo em 60 anos.

Em tempos de crise, porém, nem mesmo o expressivo mercado interno chinês, de 500 milhões a 600 milhões de consumidores, será capaz de sustentar o crescimento do país em um cenário de desaceleração grave, diz o especialista em economias asiáticas e professor do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Moreira Cunha. Doutor em economia pela Universidade de Campinas (Unicamp) e estudioso de temas como globalização e crises financeiras, Cunha não acredita que a China possa voltar a crescer a taxas anuais de dois dígitos. "A China não consegue manter um crescimento de 11% a 12% ao ano só com o mercado interno. Se o mundo inteiro cair junto com a região, especialmente países como Índia, Japão, Taiwan, a economia chinesa terá que fazer um pouso forçado, o que significa crescer algo como 5% ao ano, uma forte desaceleração", analisa. Ironicamente, a taxa do "nocaute" chinês em 2009 seria, no caso brasileiro, um avanço diante da expectativa de retração do crescimento por aqui. Comparações à parte, o termômetro da redução da expansão da China será exatamente a eficácia das medidas anticíclicas recentemente adotadas pelos líderes chineses, a exemplo do que fizeram países centrais e emergentes na tentativa de deter a contaminação do sistema financeiro e a falta de crédito para investimentos.

Em novembro, o Partido Comunista Chinês (PCC) anunciou ao mercado pacote de estímulos fiscais de US$ 586 bilhões, pouco mais do que 17% do PIB chinês, de US$ 3,38 trilhões em 2007. O dinheiro deverá ser aplicado até 2010, com foco na sustentação da demanda interna. Terão prioridade, segundo o governo local, os investimentos em habitação de baixa renda, infraestrutura do setor rural, construção e reforma de ferrovias, aeroportos e estradas. Estão incluídos no pacote cerca de US$ 14 bilhões para a reconstrução das áreas atingidas pelo terremoto na província de Sishuan, em 2008.

Preocupado com a carga tributária do setor privado, o governo também anunciou redução de impostos para compra de máquina e equipamentos. Também imprimirá nova onda de subsídios para a agricultura e isenções fiscais para setores exportadores, além da ampliação do crédito, pelo Banco da China a todos os setores estimulados pelo pacote fiscal. "A questão é saber o timing das medidas. Além disso, os investimentos anunciados estão concentrados nas regiões mais pobres do país. Não se sabe se eles conseguirão absorver a mão-de-obra desempregada", alerta o professor da UFRGS.

EMERGENTES Antes da crise internacional, o último ciclo de crescimento da economia mundial, no intervalo entre 2003 e 2007, foi puxado pelos países emergentes, especificamente pela China. De acordo com estimativas do FMI, os chineses responderam por, pelo menos, um quarto da expansão do crescimento mundial no período, enquanto só as economias emergentes foram responsáveis por três quartos do crescimento médio de 5% ao ano. A expansão chinesa, com a consolidação de um mercado consumidor de 500 milhões a 600 milhões de pessoas, gerou demanda intensiva por alimentos, água, energia e matéria prima produzidas no planeta.

Sem dúvida, a rápida transformação por que passa a China, marcada principalmente pela migração de cerca de 1% da população, 13 milhões de pessoas, rumo às grandes cidades a cada ano, explica muito o fenômeno asiático. Para fazer frente a esse imenso mercado em formação, os investimentos vêm crescendo a taxas reais de 20% ao ano e uma relação que supera os 40% do PIB desde 2003. Não é de se estranhar que os chineses já são os maiores consumidores de celulares do mundo. E, em janeiro, a China assumiu a liderança também como maior mercado mundial de automóveis, posição ocupada antes pelos Estados Unidos.

Toda essa pujança significou rearranjo da economia do leste asiático. A China representa papel preponderante na propagação de investimentos na região. Entre os países emergentes, os chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) foi a nação que mais atraiu investimento externo direto (IED) desde 1990. Nos últimos anos, o gigante também passou a carrear investimentos, US$ 11 bilhões em 2005, para o exterior, principalmente para sua periferia. A China transformou-se, sem dúvida, no centro dinâmico da economia da Ásia, com papel catalisador preponderante.

A extensa rede de relações comerciais e financeiras garante uma situação privilegiada para a região. Incluindo o Japão, mais de 40% das exportações dos países asiáticos em desenvolvimento têm como destino a própria Ásia, a metade para a China. Confirma a supremacia do "dragão" o fato de que os chineses conseguem manter os Estados Unidos como destino de suas exportações, enquanto os vizinhos perdem espaço. O fenômeno pode ser o reflexo de outro movimento: a China vem aumentando importações de matérias-primas e componentes industrializados em sua região e, na outra ponta, elevando a exportação de produtos finais para os EUA. O gigante asiático já ocupou o papel de centro regional. Catalisa as economias da região para seu projeto exportador.

TROCA QUALITATIVA Além disso, o país revela, a cada ano, uma vocação para alavancar a economia asiática a partir de uma troca qualitativa no comércio regional. Segundo análise do professor André Cunha, esse comportamento se reflete, por exemplo, pela exportação de produtos temperados para os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) e pela importação de produtos tropicais. Outro exemplo é a importação de máquinas e equipamentos do Japão, Taiwan e Coréia, países que apresentam estruturas positivas complexas.

Os chineses importam, em média, US$ 100 bilhões a cada mês, desde 2007, em máquinas e equipamentos e matérias-primas. No início de 2002, essa conta ficava, em média, em US$ 20 bilhões. Para garantir a ampliação de seus investimentos industriais, a China retribui com recursos financeiros ou investimentos diretos nos países da região. Em contrapartida, Hong Kong, Japão, Coréia do Sul e Taiwan recebem, em média, 60% dos investimentos diretos carreados para a China, que responde, ainda, por 40% de todos os recursos estrangeiros que vão para a Ásia. "A China posiciona-se como importadora líquida de insumos e equipamentos mais sofisticados dentro da região, e exportadora líquida de manufaturas para os mercados ocidentais. Na média do período 2000-2004, a China, sozinha, respondeu pela absorção de cerca de 11% do total exportado na região, contra 8% do Japão", escreveu Cunha, em trabalho acadêmico sobre o gigante asiático.

Desde o recrudescimento da crise internacional, há três meses, centenas de fábricas do leste do país paralisaram suas linhas de produção e despejaram milhões de chineses nas ruas. Toda a região leste do país está enfrentando problemas com a retração. Fábricas de brinquedos, produtos eletrônicos e calçados, principalmente, estão fechando e demitindo. Indicadores mostram que, como no resto do mundo, na China também, a deterioração dos sistemas produtivos e a desconfiança no futuro econômico está ocorrendo de forma muito rápida. Sem trabalho, o contingente de operários sem renda já contribui para o enfraquecimento do consumo interno. Entre os analistas mais pessimistas, há quem diga que a desaceleração da economia chinesa é uma questão de tempo.

REAÇÃO Estudiosos e especialistas em China alimentam, contudo, a expectativa de que, mais uma vez, a ação decisiva dos líderes chineses afastará o risco, como em ocasiões recentes da história nacional. Para o diplomata Amaury Porto de Oliveira, ex-embaixador do Brasil em Cingapura e observador atento das recentes transformações chinesas, a qualidade dos governantes, da revolução de 1949 aos dias atuais, tem sido uma variável política capaz de neutralizar todos os sobressaltos da economia.

Foi assim com o fundador da República Popular da China, Mao Tsé-Tung, em 1949, que levou o país a mergulhar no regime comunista e instituiu novos padrões de educação e saúde no país. A mudança de patamar veio com outro líder, Deng Xiaoping, responsável pelas primeiras reformas econômicas e a abertura comercial do país, que se convencionou chamar, por alguns, de Estado Desenvolvimentista Revolucionário. Para integrar a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, a China cedeu, depois de longa negociação, às exigências mais rigorosas da entidade. Dois anos mais tarde, o país já liderava a exportação de grãos.

"A China vem surpreendendo. O país de Mao foi reinventado por Xiaoping. O grande trunfo da China é a qualidade de seus dirigentes", sustenta Oliveira. O diplomata atesta que o atual presidente, Hu Jintao, e o primeiro-ministro, Wen Jiabao, também possuem qualidades políticas e administrativas suficientes para lidar com os desafios que se impõem à China de hoje. Soma-se ao histórico de sucesso em crises recentes a aposta do PCC no crescimento da economia, a prioridade número um do país.

SOB RISCO Aliás, a manutenção do crescimento é mais do que uma prioridade para os líderes comunistas da China, é um imperativo. O presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jibao, têm dado demonstrações que não medirão esforços para manter a continuidade da expansão a taxas que assegurem o nível da atividade econômica e reduzam o impacto da crise internacional.

A expectativa é de que se tomem todas as medidas necessárias contra um pouso forçado da economia. Do sucesso dessa empreitada depende o equilíbrio de forças dentro do PCC. No pior cenário, o poder dos líderes chineses poderia ser ameaçado; o regime, questionado; e a instabilidade social virar uma realidade.

Deter a desaceleração chinesa não é uma tarefa impossível quando se olha para a situação fiscal do país. Além de contar com ferramentas poderosas, o Estado chinês ainda tem "gorduras" para queimar. Após 20 anos de déficit, o resultado fiscal chinês tornou-se superavitário em 0,7% do PIB em 2007. Em 2008, o superávit foi de US$ 290 bilhões, mesmo com crescimento menor das receitas públicas. A dívida pública do país é baixa, pouco mais do que 20% do PIB. As reservas internacionais fecharam o ano passado em US$ 1,95 trilhão. Segundo o economista e professor da UFRGS André Cunha, essa situação garante a ampliação dos gastos em infraestrutura.

Além disso, a liquidez favorável ajuda a reduzir o impacto negativo da crise sobre o financiamento da economia chinesa. O sistema bancário chinês está mais sólido hoje do que em 2003, quando os grandes bancos estatais precisaram ser capitalizados. Cunha lembra que somente 15% dos fluxos de financiamento dependem dos mercados de capitais e menos de 5% dos chineses aplicam seus recursos em renda variável, com os preços em queda. "É esse cenário que permite acreditar em um pouso suave, e não forçado, para a China", diz.

CONSUMO Novas medidas deverão ser tomadas pelo governo de Hu Jintao no sentido de garantir o crescimento da renda e sustentação do consumo interno. Com baixa pressão inflacionária e taxa de juros em queda, o país ganhou com a recente estabilização de sua moeda, o yuan, em relação ao dólar, o que rendeu acusações do secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, de uma "manipulação" chinesa para aumentar artificialmente as exportações. Acusações à parte, o fato é que o comércio exterior da China já vem sentindo o impacto da retração das economias centrais, especialmente Estados Unidos e países da Europa. Em 2008, o saldo da balança, acumulado em 12 meses, caiu de US$ 266 bilhões em janeiro para US$ 224 bilhões em agosto. É no comércio internacional, sobretudo, que a China revela o peso de sua influência na economia mundial, especialmente na relação dinâmica com os Estados Unidos, que têm o país asiático como seu principal parceiro econômico.

A relevante participação chinesa no fluxo de comércio exterior da era atual - no passado, a nação já liderou o comércio internacional nos séculos 16 e 17 - é relativamente recente. Em 1985, a China respondia por apenas 1,3% das exportações mundiais - mesmo patamar do Brasil atualmente, nível que, aliás, pouco se alterou desde os anos 1990, de acordo com dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Já a China aumentou de forma tão substancial suas exportações que, em 2007 - último dado disponível - atingiu o patamar de 8,8% do fluxo de comércio internacional.

Além de aumentar sua presença, a China vem de um processo de diversificação dos destinos de seus produtos. A estratégia se confirmou na comparação entre 1995 e 2005, quando os Estados Unidos sofreram ligeira queda na participação, de 22% para 20%, como mercado de destino das exportações chinesas. Ganham espaço os países europeus - Alemanha, Holanda, Grã-Bretanha e Itália, principalmente - que, em conjunto, já têm para o gigante asiático peso equivalente ao dos EUA.

A estratégia chinesa de diversificação pode representar nova barreira para o Brasil, que embora tenha uma pauta distinta dos chineses - o Brasil exporta mais commodities, com preços em queda, e a China, manufaturados de alta tecnologia - também vem buscando novos mercados para seus produtos. Melhorar o fluxo de comércio específico entre os dois países será um desafio para o Brasil. Do total das importações da China, apenas 0,6% são produtos brasileiros - o que, para o Brasil, é metade de tudo o que exporta. A China, por sua vez, aumentou as exportações com destino ao Brasil em 2008, o que gerou saldo negativo para o país.

Diante do baque econômico dos últimos meses, os chineses assistiram o fluxo de comércio internacional recuar em 2,8% no último mês de dezembro. Para enfrentar o desafio de continuar exportando mais, os líderes locais não têm dúvida de que o principal a fazer é reduzir a tributação de toda a cadeia exportadora, estratégia que, em época recente, inundou os principais mercados mundiais de produtos made in China.

DEMOCRACIA O ex-embaixador Amaury Oliveira conta que, anos atrás, usou a imagem de uma bicicleta em alta velocidade sobre uma corda bamba para definir a força e fragilidade do gigante asiático rumo ao futuro. Para ele, a imagem ainda é bastante atual. "Acho que essa situação permanece. Na China, eles são, sobretudo, pragmáticos. Precisam manter a bicicleta andando", compara. Segundo ele, a imagem não vale só para a economia, mas também para os costumes, e como justificativa para manter um regime político hermético, sem liberdade de oposição ou expressão. Oliveira acredita que, se houvesse democracia no país, a China não iria a lugar nenhum. Não funcionaria. Não haveria unidade.

É suportada sobre essa "unidade" imposta, mas com uma economia aberta, que o gigante asiático deverá ir em busca de conquistas que sua população - a parcela que compra, pelo menos - ainda não teve acesso. Se os Estados Unidos, que respondem por algo entre 8% e 9% da população mundial, consomem 30% dos combustíveis fósseis produzidos no mundo, por que a China, que abriga cerca de 21% dos habitantes do planeta não pode ter acesso aos mesmos insumos? A China tem população cinco vezes maior do que a dos EUA e agora diz que quer viver tão bem como os americanos, diz Oliveira. Para a solução do problema, o diplomata acredita no efeito do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. "Espera-se que o Obama traga o mundo para a situação anterior à crise. Mas, para mim, só terá sucesso se conseguir encaixar a China na situação da nova ordem econômica mundial", analisa. A nova ordem certamente passará pela capacidade de China e EUA em adquirir combustíveis fósseis ou substituí-los por energia de fontes renováveis para alimentar o apetite de suas economias.