Os emergentes ganham força - Países em desenvolvimento buscam saída para crise Imprimir

2009 . Ano 6 . Edição 51 - 07/06/2009

 

De olho na China

Por Gilson Luiz Euzébio, de Brasília

O estreitamento de relações com a China é fundamental num momento em que as grandes nações estão mergulhadas na crise econômica e os países em desenvolvimento procuram se impor no cenário mundial

Empréstimo de US$ 10 bilhões do China Development Bank, o banco de desenvolvimento da China, para investimentos na Petrobras e abertura do mercado chinês para as exportações brasileiras de carne de frango são os resultados mais visíveis da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mês passado, à China. Mas o encontro de Lula com o presidente da China, Hu Jintao, também abre perspectivas para uma relação estratégica entre os dois países, com o estreitamento de relações comerciais, econômicas, financeiras e políticas. Num momento em que os países desenvolvidos estão mergulhados na recessão, o movimento de aproximação entre Brasil e China indica a busca de saídas internacionais fora das esferas das economias centrais - União Europeia e Estados Unidos. Tanto que o presidente Lula esteve também na Arábia Saudita e na Turquia.

A China já é o principal parceiro comercial do Brasil, posição antes ocupada pelos Estados Unidos. "Isso significa que os fluxos de comércio tendem a aumentar", comenta Luciana Acioly, coordenadora de Estudos das Relações Internacionais e do Desenvolvimento (Cerid) do Ipea. Além disso, todas as projeções indicam que a economia chinesa vai crescer este ano em torno de 6%, apesar da crise econômica mundial. "Os países do Primeiro Mundo estão em crise e, com isso, os países emergentes ganham a cada dia mais importância", afirma Fernando Ou, presidente da Associação Chinesa no Brasil. Para ele, a aproximação entre os dois países é estratégica no enfrentamento da crise. Luciana Acioly acrescenta que investir e atrair investimentos chineses pode significar um ganho bilateral. "É estratégico para a China, que está interessada nos recursos naturais brasileiros, e pode ser interessante para o Brasil atrair investimentos chineses que possam aumentar nossas exportações", afirma.

Ao tomar o empréstimo com prazo de 10 anos, a Petrobras fechou também contrato de exportação de 150 mil barris de petróleo por dia para a China no primeiro ano. Nos nove anos seguintes, o país comprará 200 mil barris diários da Petrobras. Houve avanço também nas negociações para exportação de carne bovina brasileira e no anúncio de investimentos para instalação de uma indústria automobilística da China no Brasil. Além das questões comerciais, os dois países comungam do propósito de definição de uma nova arquitetura financeira internacional, na qual os países em desenvolvimento tenham mais poder.

"Qualquer país que se alia ou tem uma relação mais próxima com países que estão se tornando líder chama a atenção", afirma Luciana Acioly, que coordenou a elaboração de um estudo sobre a internacionalização da economia chinesa. Outro aspecto relevante, comenta ela, é que a China dispõe de recursos para financiar seus negócios. Isto é resultado, dentre outros fatores, de sua uma política monetária. "O acúmulo de reservas de divisas possibilita a realização de uma política monetária favorável à expansão do crédito interno, que é operado com baixas taxas de juros por bancos estatais especializados, garantindo o crescente volume de investimentos internos" lembra o bolsista do Ipea Rodrigo Pimentel Ferreira Leão, baseado em um trabalho do professor Carlos Alonso Barbosa de Oliveira, do Instituto de Economia da Unicamp. Rodrigo Leão e a também bolsista do Ipea, Maria Abadia Alves, responsáveis pela pesquisa juntamente com Luciana Acioly, destacam ainda a discussão sobre a possibilidade de firmar contratos com as moedas dos dois países, e não em dólar. A China quer tornar a sua moeda, o yuan, referência nos negócios internacionais. O Brasil também vislumbra trilhar o mesmo caminho, apesar das iniciativas ainda serem tímidas. "O dólar tem perdido espaço no cenário internacional", constata Rodrigo Leão. Ter moedas fortes é interessante para os dois países, que começam a ter mais destaque no cenário internacional.

"A questão geopolítica de aproximação da China com a América Latina é importante. Ficou claro na reunião do G20 que a China quer ter liderança no Bric (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China) e diminuir a influência americana nesses países", afirma Maria Abadia Alves. Para ela, enquanto o Brasil busca a liderança na América do Sul, a China tem uma estratégia global. "A China, entre os principais emergentes, é a nação que tem buscado uma política externa mais agressiva", diz. "E tem buscado uma agenda alternativa ao modelo americano, mas sem confronto direto com os Estados Unidos", acrescenta Rodrigo Leão.

Comércio e geopolítica Agora, a China começou a expandir seus negócios com a África e a América Latina, dentro de um plano estratégico de expansão econômico-financeira que vem sendo definido desde a década de 1980, com o objetivo de elevar o país à posição de grande player mundial. Essa política, segundo os pesquisadores do Ipea, ficou mais evidente a partir de 2002, quando o governo chinês instituiu um programa de incentivos aos investimentos no exterior.

De acordo com o estudo do Ipea, a internacionalização das empresas chinesas também ultrapassa os interesses meramente comerciais. Leva em conta a sustentabilidade do balanço de pagamentos e até objetivos geopolíticos. Dessa forma, além da Ásia (principalmente a China) se consolidar como pólo manufatureiro e, portanto, receptor de um grande volume de investimentos estrangeiros, os países asiáticos têm buscado realizar com mais intensidade o movimento oposto, ou seja, de investir no exterior. Em 2006, por exemplo, das dez maiores empresas transnacionais dos países em desenvolvimento, nove eram asiáticas, a maioria da China. Nenhuma empresa era latino-americana. Os investimentos da China no exterior saltaram de US$ 830 milhões, em 1990, para R$ 22,5 bilhões, em 2007, o segundo maior número entre os países em desenvolvimento (só perde para Hong Kong).

"Esse desempenho da China está relacionado à agressividade da internacionalização de suas empresas, amparadas por políticas de incentivos", afirmam os pesquisadores. Todas as grandes empresas transnacionais chinesas são estatais, mas o governo dispõe de linhas de financiamento, com juros subsidiados, para a internacionalização também de empresas privadas. A política de incentivos à internacionalização embute a estratégia de fornecimento de recursos naturais necessários ao desenvolvimento da China. Na América Latina, por exemplo, o país tem interesse em produtos como petróleo, ferro e cobre, e também em vender seus produtos no mercado consumidor.

A internacionalização da economia chinesa é um processo relativamente recente: primeiro, o país entrou no mercado regional, ampliando sua presença na Ásia, caminho semelhante ao que o Brasil vem trilhando ao buscar primeiro a liderança no Mercado Comum do Sul (Mercosul). "Normalmente, os países criam bases regionais para depois avançar", explica Luciana Acioly. Mas o Brasil, ao contrário da China, ainda está muito tímido no processo de internacionalização de suas empresas. No continente africano, por exemplo, as intenções brasileiras de aproximação com a África deram pouco resultado, enquanto a China conseguiu avanços importantes. Por isso, Luciana destaca que "tendo se beneficiado da dinâmica asiática, da qual é a líder regional, a China se fortaleceu, criando elos industriais, fato que começa a tornar o jogo de suas empresas mais global".

Na relação com a China, por exemplo, o Brasil tem que buscar a diversificação da pauta de exportação, concentrada em commodities.

"O interesse dos chineses na América Latina é mais em produtos naturais e não em produtos de maior valor agregado", comenta Rodrigo Leão. As negociações não avançaram, por exemplo, na venda de aviões da Embraer para os chineses. Processos de abertura de mercado e atração de investimentos não trazem resultados imediatos, como lembrou o presidente Lula.

"Pouco a pouco os chineses vão tendo mais confiança no Brasil", prevê Hsia Hua Sheng, professor da Fundação Getúlio Vargas, que defende a melhor exploração do mercado financeiro chinês: "Por que não fazer emissão de títulos soberanos na China?" Na verdade, falta um plano de ação para garantir a efetiva inserção das empresas brasileiras no mercado internacional, que agregue política de apoio, inovação, escala de produção, competitividade e política industrial. O estudo do Ipea visa a verificar os parâmetros seguidos por outros países na internacionalização de suas empresas. Os resultados obtidos até o momento mostram que na China o processo de internacionalização já está mais difundido que na América Latina - e possui perfil distinto.

"A China quer ocupar novos espaços para atender suas necessidades internas e também por razões geopolíticas", comenta Maria Abadia Alves. E estabeleceu como prioritários os projetos que supram a falta de recursos domésticos, projetos industriais e de infraestrutura que estimulem a produção doméstica, geração de emprego e de tecnologia; projetos de pesquisa e desenvolvimento e de fusões e aquisições para aumentar a competitividade das empresas chinesas no mercado internacional. "O Estado está muito presente nesse processo. Ele age em várias frentes, via banco de fomento, busca informação sobre mercados potenciais; criou institutos de pesquisa específicos e o fundo soberano, que estava, antes da crise, sinalizando outra via de participação chinesa no capital do mundo", afirma.

O Brasil definiu algumas políticas de apoio à internacionalização de suas empresas, mas o avanço efetivo desse processo ainda está aquém do desejado. A coordenadora do Cerid afirma que "não será com uma política a "conta-gotas" que o Brasil vai enfrentar a concorrência internacional e se tornar protagonista em inovação e em produtos de valor agregado". Para que esse processo alavanque é fundamental a participação do Estado e o apoio a setores mais modernos e dinâmicos que exigem uma visão de longo prazo. "O jogo é global, não dá para ficar no varejo, é preciso um olhar mais sistêmico", acrescenta. A política macroeconômica que apoie essa visão estratégica é fundamental. "À medida que outros vão definindo suas estratégias, nosso grau de escolha vai se alterando", alerta.

Na falta de uma visão de longo prazo, o Brasil fica condenado ao papel de exportador de produtos primários. Rodrigo Leão ressalta que 15 anos depois da abertura comercial a nossa pauta de exportação pouco foi modificada, com os produtos primários ainda sendo o principal item da pauta exportação por intensidade tecnológica. Países como a China, que ingressaram num processo de reformas econômicas visando a realizar uma abertura muito mais seletiva e mantendo uma forte atuação do Estado, apresentaram resultados melhores em termos de inserção internacional. Na própria China os produtos que mais têm ganhado participação na pauta de exportação, por intensidade tecnológica, foram aqueles mais intensivos em tecnologia.